sexta-feira, 6 de abril de 2012

Gnaw Their Tongues “L’arrivée de la terne mort triomphante”


Gnaw Their Tongues
“L’arrivée de la terne mort triomphante”
2010 Candlelight Records


A existência prova que, por mais luz que nos possa guiar, é difícil nos afastarmos de certas obras tão monstruosamente inspiradas cuja pretensão não é apenas nos arrepiar a pele mas cobrir a nossa consciência com a mais vil mortalha e crivar no nosso âmago aquela fragilidade insondável que nem a noite tardia pôde antes ensinar. Nada nos surge como lampejo de sanidade e avançamos agarrados ao nosso corpo tentando não sentir um quezilento frio que se auto-glorifica ao morder sem pudor…
Conhecido pela qualidade deste projecto, o multi-instrumentista Mories expurga um quinto lançamento onde transcorre uma soturna ambiência que se refugia por entre melodias contagiantes lastimadas por insinuações industriais. Aqui, conspurcadas por uma toada black-metal onde os gritos são perversidades que sorriem, a morte é um conceito primordial que pouca esperança de redenção nos transmite. Não que precisemos dela quando nos confortamos com a ebriedade inspiradora desta edição.
Apesar das influências, as mais óbvias sendo “In Slaughter Natives”, “Blood Axis” e “Sunn O)))”, existe aquele algo mais que se torna único com cada audição. Tal é muito devido às diferentes camadas sonoras que abrigam mais realidades do que se poderia enunciar se não houver a descontracção suficiente, ou impiedosa sujeição, que nos afaste da realidade do dia-a-dia.

(9/10)
Jorge Ribeiro de Castro  
crítica publicada na "Versus Magazine"

Falkenbach “Tiurida”


Falkenbach
“Tiurida”
Napalm Records 2011


 
Com uma carreira de mais de duas décadas, o multi-instrumentista Vratyas Vakyas (também mentor da editora Skaldic Art) dá-nos a conhecer o seu quinto álbum, cujo titulo traduz-se por “glória”. Uma vez mais, quatro músicos de sessão (Hagalaz - guitarra, Tyrann – gritos, Boltthorn – bateria e Albion - baixo) ajudaram-no a dar forma à sua inspiração. Talvez haja quem lamente ter esperado seis anos para um novo lançamento, desejando ouvir algo que transcendesse os álbuns anteriores, sobejamente reconhecidos pela qualidade e ambiências altivas. Isso, especialmente após o último álbum, “Heralding – The Fireblade”, que contém algumas músicas que iriam ser editadas no que devia ser o primeiro do projecto, “The Fireblade”, mas que não chegou a sair. No entanto, ao ouvir “Tiurida” descobre-se que este não peca por qualquer fraqueza pois as melodias são verdadeiras riquezas emocionais que nos elevam o espírito, as líricas sendo também uma continuação do conceito omnipresente em todos os lançamentos anteriores ou seja, sobre as culturas, tradições e cenários próprios da mitologia europeia. Assim, com esta edição Falkenbach delimita um glorioso lugar num estilo que pode ser designado por muitos como Folk/Black/Viking-Metal mas cuja descrição tem menos interesse para o próprio mentor do projecto do que a música e as líricas. Bem, o que importa mesmo é que Falkenbach está de volta e a sua música continua deslumbrante!


8/10
Jorge Ribeiro de Castro

crítica publicada na "Versus Magazine"

Demonica “Demonstrous”


Demonica
“Demonstrous”
2010 Massacre Records

            Este é o primeiro álbum dos Demónica, agrupamento formado por cinco gigantes vindos da Dinamarca e Estados Unidos que não temem em desbravar caminho por demências e outras monstruosidades. Estes são Hank Sherman (guitarra - Mercyful Fate), Craig Locicero (guitarra - Forbidden), Marc Grabowski (baixo – Corruption), Mark Hernandez (bateria – Forbidden) e Klaus Hyr, um louco com voz de tempestade dentro de uma garrafa com o gargalo partido que já tocou baixo e rasgou as goelas em Furious Trauma e Battalion.
            O que é que se poderia esperar de um agrupamento com tão extensiva biografia senão o mais ultrajante do Thrash-Metal? Quem quiser uns bons minutos de martírio poderá esperar em “Demonstrous” um batalhão de ritmos excruciantes violados por uma panóplia vocal que rasga ouvidos como se não se importasse em entorpecer qualquer miserável condição que nos tenha anteriormente seduzido. Isto é… se não se importarem de regredir no tempo pois existem óbvias influências que agradará aos fãs de Slayer, Nuclear Assault, Testament e Destruction.
Enganam-se ao pensar que a única coisa a esperar deste lançamento seja uma sobeja brutalidade pois “Demonstrous” compreende certos apontamentos melancólicos que dão a conhecer o uso e abuso do experimentalismo. Tal só poderá ser apreciado se se gostar da deturpação de elementos um tanto contemporâneos, embora apenas lhes dê uma diminuta originalidade elegantemente disfarçada. Infelizmente, a nível lírico também não existem grandes filosofias ou eloquências devido à repetição de clichés o que nos conforma com a apresentação de uma banda a ter em atenção nem que seja pela elite que a forma.

(7,5/10) 
Jorge Ribeiro de Castro

crítica publicada na "Versus Magazine"

Deicide “To Hell with God”


Deicide
“To Hell with God”
2011 Century Media

            Quem já conhece desde há muito as blasfemidades deste grupo de veteranos do Death-Metal, de certeza que não se irá ofender com o título do álbum e muito menos com os das músicas. Afinal, que mal faz deturpar um deus que foi desvirtuado por tantas personalidades históricas, ditas cristãs, em prol do seu bel-prazer, ganância e poder? Cansaços e indecências à parte, todos sabem que a religião não é um assunto que mereça ênfase quando o mais importante é a qualidade da música. E sim, esta não foge muito às peculiaridades que Deicide já demonstrou… apenas parecendo que a dissonância instrumental e a insanidade vocal estão ainda mais apuradas. A produção é tão refinada que este álbum se torna facilmente audível, podendo levar alguns a dizer que a banda procura ser mais vendável, mas que não é necessariamente mau se tivermos em conta os músicos em questão. Se alguns fanáticos dizem que alguns elementos abusadores podem retirar alguma da intensidade de trabalhos anteriores, não se pode dizer que demonstram uma composição algo desgastada, havendo talvez maior ênfase em outro patamar. Se tinham saudades de temas com ritmos acutilantes, vocais permissivos à podridão e solos extasiantes, oiçam este álbum. Aos mais jovens, que ainda não se aperceberam que esta banda de mais de vinte anos faz parte do leque de pioneiros do movimento mais abrasivo do género, esta poderá ser uma descoberta extremamente interessante.


9/10
Jorge Ribeiro de Castro
crítica publicada na "Versus Magazine"

Book of Black Earth “The Cold Testament”


Book of Black Earth
“The Cold Testament”
2011 Prosthetic


 
Por vezes, passeamos sozinhos por lugares onde já estivemos e, se temos sorte, encontramos algo que antes não estava lá. Ficamos curiosos, ponderamos se devemos nos aproximar e depois, porque nada temos a ver com o felino da vizinha, deixamos o cuidado de lado e nos atiramos a uma atenta pesquisa do que é essa coisa ao certo. No meu caso, descobri através da lista de Cds, disponibilizada por esta portentosa magazine aos seus colaboradores, uma banda que, após os primeiros minutos de audição, me atraiu de tal maneira que ouvi mais vezes do que normalmente faço quando pretendo escrever uma crítica. Se existem maneiras apropriadas de passar a alguém qualquer testemunho, os elementos de Book of Black Earth demonstram ter encontrado uma que é totalmente convincente. Este terceiro álbum, “The cold testament”, despeja agressividade e melancolia como se fossem gotas de ácido e de gelo que tocam diferentes partes da nossa alma. Se pensam que uma contradiz a outra, não se esqueçam de que as nossas emoções também o fazem. Sendo de Seattle, os seus membros demonstram uma tal inspiração e capacidade instrumental que não é nada difícil conquistar a atenção de qualquer adepto de Death/Black-Metal.


8,5/10
Jorge Ribeiro de Castro
crítica publicada na "Versus Magazine"

As I Lay Dying "The powerless rise"


As I Lay Dying
“The powerless rise”
2010 Metal Blade Records



Disseram-me algum tempo atrás que a reciclagem não valia a pena pois este planeta já estava condenado. Discordei da afirmação pois acredito que, mesmo sendo pouco o que podemos fazer, não se pode negar que tal acção poderá começar uma reacção em cadeia de maiores proporções que seja inequivocamente positiva.
O agrupamento As I Lay Dying já existe desde 2000 e “The powerless rise” é o seu quinto álbum. Carregado de ritmos fortes, melodias um tanto apelativas e uma descarga vocal proeminente, esta crítica poderia enaltecer todos os pontos fortes de uma banda de Metalcore… não tivesse eu 37 anos e já ouvido carradas de bandas que, tediosamente, soam ao mesmo. Acontece que, ouvindo o álbum tempos depois após uma passagem por outros géneros musicais, senti inicialmente como se estivesse a apreciar uma lufada de ar fresco e que, além da inequívoca qualidade da banda, este seria um lançamento que perduraria por muito mais tempo na minha playlist. Só que… ainda me lembro de muitas outras bandas e se todas essas têm determinados níveis de qualidade, As I Lay Dying recorre daquela pujante condição que é ser mais um enérgico comboio em risco de colisão. Assim, mais uma banda cujos destroços poderiam ser investigados e nos dar a conhecer que nada de novo surgia que elevasse o espírito. Sim, até parece que a banda o sabe dado o título do álbum…
Será que os dez anos de existência não concederam aos membros da banda outras ideias que lhes permitisse reinventar a sua sonoridade? Será que o que se pode esperar deste agrupamento são mais dez anos de uma energia tépida que não agarram suficientemente bem a alma mas que apenas funcionam ao vivo quando a adrenalina, e uma certa quantidade de álcool, nos inebria? Isso, somente o tempo dirá mas, por enquanto, temos um álbum que é pouco mais do que se poderia esperar…


(6/10)
Jorge Ribeiro de Castro  

crítica publicada na "Versus Magazine"

Arma Gathas "Dead to this world"



Arma Gathas
“Dead to this world”
2010 Metal Blade Records


Arma Gathas é composto por Simon Fülleman (Cataract), Ché Snelting (Born from pain), Marc Niedersberg (Machine made god e Cornelius), Max van Winkelhof (Disloyal) e Alex Härtel.
Formado em 2006, este agrupamento germânico dá-nos a conhecer neste seu primeiro álbum as virtuosidades abrasivas das suas influências. Assim, tanto nos ferem os ouvidos com uma agressividade de inequívoca qualidade como nos acalmam o espírito com composições que irradiam uma ilusória transcendência, ambas as vertentes nos deixando marcas que só pecam por tanto agradar, embora talvez um certo cansaço auditivo surja perto do final do álbum.
Apesar do fio condutor que nos enleva a traçar influências como Machine Head, Entombed, Bolt Thrower e Hatebreed, notamos que o agrupamento possui a tendência para surgir com um cunho um tanto original, as ideias sendo amplamente diversificadas, o que talvez seja mais evidente no próximo álbum. Aqui, os instrumentos tentam nos cortar a respiração mal nos dando tempo para pensar enquanto ouvimos a tempestiva intensidade cuspida pelo vocalista e liricista Ché. Se a conseguirmos ter é porque o agrupamento tem o bom senso de vir com instrumentais que parecem dizer “calma, calma, não fiques nervoso”. No entanto, mal nos acalmamos surge uma outra tempestade que parece irradiar loucura. É caso para dizer: “Sacanas…”
Enfim… Confrontados com a abnegação de realidades ficcionadas, tudo o que ouvimos são concepções estritamente verdadeiras pois que dizer de um mundo que se revela tão inóspito que nada de tentador nos traga? Sem saber a qual louco patamar se irá parar à medida que ouvimos este álbum, este não será um lançamento propício para nos relaxar mas, se houver males a expurgar, de certeza que agradecerão pela oportunidade…


(8/10)
Jorge Ribeiro de Castro
crítica publicada na "Versus Magazine"