sexta-feira, 6 de abril de 2012

Night in Gales “Five Scars”


Night in Gales
“Five Scars”
2011 Lifeforce Records



Conhecendo este agrupamento alemão desde 1997 com o seu primeiro álbum, “Towards the Twilight”, um excelente debut que vomita uns dos melhores riffs que já ouvi no Death-Metal melódico, tive o cáustico prazer de ouvi-los em “Thunderbeast”, o seu segundo álbum, este apresentando uma boa dose de razões para quase partir o pescoço. Se aos dois álbuns seguintes não prestei muita atenção, tal não foi por desconhecimento de causa, mas porque há muito que se pode ou não fazer nesta vida de altos e baixos. No entanto, descobrindo que tinham editado recentemente um novo álbum, apressei-me a ouvi-lo e é claro que sorri ao descobrir que a banda ainda possui aquela vontade de cortar qualquer obstáculo com instrumentos afiados pela perseverança e uma qualidade muito superior a certos agrupamentos menos iluminados pela inspiração. Embora os membros tenham participado em outros projectos (Deadsoil, The Very End, Grind Inc, In Blackest Velvet…), Night in Gales esteve afastado da edição de álbuns desde 2001, tendo editado em 2005 um Ep “Ten years of tragedy” (download gratuito) celebrando os 10 anos de existência. Com este novo álbum, surge outra vez aquela libertinagem enraivecida que nos arrepia como a neve e as letras tão surreais quanto Dali embriagado. As músicas são habilmente contempladas com diversos apontamentos melancólicos que seduziriam qualquer alma penada a assombrar com maior eloquência mas, o que mais inspira a rasgar a cara com sorrisos, é saber que a banda está de volta. E, claro, a comunidade Metal agradece!!!


9/10
Jorge Ribeiro de Castro
crítica publicada na "Versus Magazine"

Nervecell “Psichogenocide”


Nervecell
“Psichogenocide”
2011 Lifeforce Records

Longe está o início deste milénio, um ponto de origem para vários enlaces, um deles sendo Nervecell, um agrupamento dos Emirados Árabes Unidos, mais concretamente Dubai. Deixando de lado qualquer sumptuosidade inerente a esse lugar e inspirando-se em recantos mais funestos à alma desabrigada, Nervecell cedo mostrou que possuía um grande empenho em corroer o underground. Conquistando já uma sólida base de fãs com os diversos eps, o seu primeiro álbum, “Preaching Venom”, demonstrou que a banda subia a fasquia tanto em qualidade como em motivação. Após vários concertos pelo mundo afora, alguns deles em diversos festivais de renome, Nervecell demonstra com “Psichogenocide” que as areias dourada do deserto reluzem mesmo a ouro, se é que tal pode ser traduzido em inspiração. A sua música, contendo influências de Deicide, Morbid Angel e Nile {Karl Sanders participa na faixa Shunq (To The Despaired… King Of Darkness) tal parecendo apenas um desejo da banda do que uma necessidade} demonstra uma tal qualidade instrumental que não há maneira de agarrar uma qualquer tábua de salvação e deixar-se levar pela harmonia… a não ser, claro, que apenas se oiça a primeira faixa, um instrumental preenchido por cativantes melodias arábicas. No entanto, os metaleiros mais aguerridos, ou os que desejam cortar qualquer tédio com lides sanguinárias, de certeza que encontrarão horizontes mais apelativos com a audição deste álbum. Se a sua saúde será a mesma após uns tempos a ouvi-lo, não me importaria de saber…


8,5/10
Jorge Ribeiro de Castro
crítica publicada na "Versus Magazine"

Mourning Lenore “Loosely bounded infinities”


Mourning Lenore
“Loosely bounded infinities”
2010 Major Label Industries



Como uma viagem que nos separa do esplendor das horas claras e bebe conforto de um cansaço que carece de agonizantes arrepios, Mourning Lenore nos dá a conhecer o seu primeiro álbum cuja qualidade prima pela satisfação. Tendo em conta que é uma banda com pouco mais de dois anos, ter um álbum editado que esteja acima da mediania já é um grande ponto a favor.
As seis músicas com que nos presenteiam, as duas últimas como bónus tendo sido anteriormente editadas aquando do split com Insaniae referente ao aniversário da “Daemonium Zine”, nos conquistam pela sua faustosa cadência. Embora estas não se rebelem contra os elegantes cânones do que é normal no Doom-Metal, demonstram que a banda possui bons músicos e que inspiração para algo mais não lhes falta.
Ao ouvir o álbum, somos acariciados por melodias que conquistam à primeira audição, sendo, no entanto, fácil de reconhecer a rispidez de barreiras cujas arestas rasgam certas semelhanças com as nuances mais cruas de Paradise Lost, Anathema e Katatonia. O importante é que, beber de certas influências não pressupõe uma roupagem totalmente igual e o agrupamento vinga sem alguma vez pender para um descarado aborrecimento.
Este pode não ser um álbum ultra-sublime mas tem muito para agraciar os amantes do género, só se esperando que o próximo lançamento não seja tão lento quanto a música.


(7,5/10)
Jorge Ribeiro de Castro 
crítica publicada na "Versus Magazine"

Illogicist “The unconsciousness of living”


Illogicist
“The unconsciousness of living”2012
Hammerheart Records/Willowtip



Há quem crie seguindo referências dispersas e há quem recrie usando uma norma um tanto ou quanto convencional. Formada em 1997, esta banda italiana já editou três demos e três álbuns. Se o seu primeiro Cd, “Subjected” – 2004, provou que era um agrupamento em ter em conta no Death-Metal técnico, o seu segundo, “The Insight Eye” –2007, uma besta multi-facetada e abrasiva, cativou as massas devido a uma composição superior. Anos mais tarde, Illogicist convida-nos, com este seu terceiro álbum, a entrar num recinto onde as notas musicais são arremessadas de forma ainda mais enlouquecida. Estas, embrulhadas por uma certa apoteose composicional, trituradas por turbilhões de mestria musical e envoltas em camadas de inconstantes melodias, mostram uma direcção artística que recolhe elementos do passado (Chuck Schuldiner e os seus Death; uma referência omnipresente em Illogicist). Ouvindo várias vezes este álbum, fiquei com a ideia de que a elevada homenagem à sua influência principal não foi tão feliz assim pois podiam ao menos ter tentado esquivar-se da pouca originalidade de “The unconsciouness of living” com alguns outros elementos (por ex: tendo em conta os vocais mais thrashy somos logo remetidos para “The Sound of Perseverance”). Apesar disso, este é um álbum que mostra conseguir vir com uma preponderante composição e que de certeza irá agradar a quem gosta de velocidade e virtuosismo.


8/10
Jorge Ribeiro de Castro
crítica publicada na "Versus Magazine"

Icon In Me “Head Break Solution”


Icon In Me
“Head Break Solution”
2011 MDD


Apesar da diversidade de vivências (característica do lugar onde nascemos, da educação que nos dão, das experiências que temos), as emoções são sempre as mesmas. Ora somos atormentados pela lágrima, ora inebriados pelo riso. No entanto, há sempre a descoberta de algo com o qual não estamos nada contentes e assim surge aquela tempestade que pronuncia o nosso desagrado… Esbracejamos, gritamos, afrontamos o que é detestável com palavras e actos ou usamos o nosso dom para a Arte de modo a compor música seguindo determinados preceitos que rasgam qualquer dogma com avidez. Aqueles que não têm um dom para a Música, mas acredito que o tenham para outra coisa qualquer, dêem uns minutos do seu tempo à audição deste álbum. Icon In Me pode ser considerado um agrupamento internacional (com membros da Rússia, Dinamarca e Suécia) que toca o que se designa por Metal moderno ou seja, a garra frenética do Thrash conjugada à agressiva irreverência do Hardcore, à preponderante modulação do Death e alguma delirante experimentação… mas apresenta doze músicas de grande qualidade. Não importa se neste seu segundo álbum aparece um vasto leque de famosos convidados de modo a aprimorar uma ou outra parte das músicas com determinado talento, o esqueleto da composição demonstra o carácter grandioso da banda. Acredito que, após algum tempo perdidos na sua audição, não existirão dúvidas que o título calha mesmo bem. Aliás, até se sentirão menos desconfortáveis do que antes… Pois, é o cansaço após tão grande headbanging.


8,5/10
Jorge Ribeiro de Castro

crítica publicada na "Versus Magazine"

Horned Almigthy “Necro Spirituals”


Horned Almigthy
“Necro Spirituals”
2010 Candlelight Records



Começando a sua carreira no início de 2002, este agrupamento dinamarquês de Black/Thrash-Metal tem pontuado o underground com dissonantes imponências que fascinam qualquer fã do género pela sua ultrajante qualidade. Como a peste que fibrilha por entre os poros de um fanático religioso que escarnece da escuridão, “Horned Almighthy” corrói qualquer glorioso projecto advindo de miríades celestiais e o torna um podre adjectivo moribundo. Isso porque nos remete a dimensionalidades extremas onde nenhum preceito esclavagista os agrilhoa…
Sem sensibilidade para qualquer harmonia ou conceitos desproporcionais à mais justa imoralidade, este seu quarto álbum pode não expandir horizontes, muito pelas influências de “Celtic Frost”, “Bathory” e “Darkthrone”, mas descarrega uma bem-vinda fúria que repele qualquer insípida languidez.
A escuridão que se agarra à alma concede menos prazer do que a caótica diversão que “Horned Almigthy” nos presenteia neste lançamento pois sempre existe quem deteste a pálida sociedade que tanto descrédito merece pela forma como tenta automatizar a todos. Ouvindo este Cd sem parar, libertamo-nos do que existe para além do recinto onde estamos mas somos trucidados por ritmos exponenciais à tempestade enquanto os vocais rasgam os mais inspirados trilhos. Não importam os traumatismos, sorrimos por estarmos embriagados por convulsões carismáticas e o corpo brilhar pela transpiração.


(8,5/10)
Jorge Ribeiro de Castro  
crítica publicada na "Versus Magazine"

Gnaw Their Tongues “L’arrivée de la terne mort triomphante”


Gnaw Their Tongues
“L’arrivée de la terne mort triomphante”
2010 Candlelight Records


A existência prova que, por mais luz que nos possa guiar, é difícil nos afastarmos de certas obras tão monstruosamente inspiradas cuja pretensão não é apenas nos arrepiar a pele mas cobrir a nossa consciência com a mais vil mortalha e crivar no nosso âmago aquela fragilidade insondável que nem a noite tardia pôde antes ensinar. Nada nos surge como lampejo de sanidade e avançamos agarrados ao nosso corpo tentando não sentir um quezilento frio que se auto-glorifica ao morder sem pudor…
Conhecido pela qualidade deste projecto, o multi-instrumentista Mories expurga um quinto lançamento onde transcorre uma soturna ambiência que se refugia por entre melodias contagiantes lastimadas por insinuações industriais. Aqui, conspurcadas por uma toada black-metal onde os gritos são perversidades que sorriem, a morte é um conceito primordial que pouca esperança de redenção nos transmite. Não que precisemos dela quando nos confortamos com a ebriedade inspiradora desta edição.
Apesar das influências, as mais óbvias sendo “In Slaughter Natives”, “Blood Axis” e “Sunn O)))”, existe aquele algo mais que se torna único com cada audição. Tal é muito devido às diferentes camadas sonoras que abrigam mais realidades do que se poderia enunciar se não houver a descontracção suficiente, ou impiedosa sujeição, que nos afaste da realidade do dia-a-dia.

(9/10)
Jorge Ribeiro de Castro  
crítica publicada na "Versus Magazine"